Os “30% de pensão” são um mito: entenda como o valor realmente é definido pela Justiça
Existe uma frase que muitas mulheres escutam antes mesmo de procurar uma advogada: pensão é sempre 30%.
E, por incrível que pareça, muita gente acredita nisso como se fosse uma regra absoluta da Justiça. Mas não é. Não existe uma lei que determine que toda pensão alimentícia deve ser fixada em 30%. Esse número não passa de uma ideia popular que foi sendo repetida ao longo dos anos, como se todos os casos fossem iguais. E não são.
A Justiça deve analisar cada família de forma individual. E, nesse cenário, uma atuação com perspectiva de gênero se torna essencial. Isso porque, na prática, a maternidade ainda é atravessada por desigualdades que muitas vezes não aparecem nos documentos do processo, mas impactam diretamente a vida da mulher após a separação.
Na maioria dos casos, é a mãe quem permanece responsável pela organização da rotina da criança, pelas consultas, pela escola, pela alimentação, pelos cuidados emocionais, pelas urgências do dia a dia e por toda a logística invisível que existe por trás da criação de um filho. É o chamado trabalho invisível de cuidado.
Um trabalho permanente, desgastante e não remunerado, que frequentemente exige da mulher redução da vida profissional, perda de oportunidades, sobrecarga física e emocional e reorganização completa da própria rotina.
Porque criar um filho não custa apenas “comida”. Custa aluguel, material escolar, remédio, roupa, transporte, lazer, internet, saúde emocional, tempo e exaustão. E, na maioria das vezes, existe uma mulher sustentando silenciosamente toda a organização da rotina da criança enquanto ainda precisa provar que “não está pedindo demais”.
Muitas mães chegam ao escritório se sentindo culpadas por cobrar pensão. Como se estivessem exigindo um favor.
Mas pensão alimentícia não é ajuda. Não é gentileza. Não é “dinheiro para a mãe”. É dever parental.
Por isso, a discussão sobre pensão alimentícia não pode ser reduzida a um número aleatório ou a porcentagens prontas repetidas na internet. Uma pensão justa exige cálculo real das despesas da criança, análise concreta da dinâmica familiar e compreensão de quem efetivamente suporta a maior parte da carga cotidiana do cuidado.
E talvez exista uma pergunta que poucas mulheres fazem antes de aceitar qualquer valor: você realmente sabe quanto custa criar o seu filho?
Porque, muitas vezes, o que permanece invisível não são apenas os gastos da criança, é também o peso diário do cuidado que continua recaindo quase integralmente sobre a mãe.
E é justamente por isso que ter uma advocacia com perspectiva de gênero faz diferença: enxergar que, por trás das planilhas e comprovantes, existe uma mulher sustentando diariamente uma estrutura de cuidado que quase sempre permanece invisível.
